Isso aqui é sobre dormir na praia. Sobre o vento que bagunça o cabelo e a
gente não tá nem aí. Sobre a lua e a areia e as luzes da noite. Sobre a pouca
roupa. Sobre fechar os olhos e puxar ar pra dentro como quem se sente inflar.
Sobre como essas coisas perderam espaço. Sobre como o sorriso ficou atrelado ao
gastar. E como eu sinto falta de ficar suada, de comer jaca, de andar descalço,
de viver sem medo de me desgastar ou de sentir dor ou de deixar de parecer bem.
Sobre não lembrar do protetor solar, do hidratante, do leave in, do renew.
Sobre dormir de cabelo molhado. Só porque eu quero. Sobre ter as unhas curtas, sobre
não fazer a raiz. Sobre o glúten, a gordura trans, a lactose, o sódio, a
glicose e a pressão alta. Sobre o salto alto, a cintura fina e o peito de
pomba. Sobre cachorros vira lata. Sobre cavalos. Sobre animais gostosos que
sentem o que a gente sente mais do que muita gente por aí. Sobre abraços sem
perguntas. Sobre beijo de manhã, sob a pele suada sem nojinho ou frescurinha.
Sobre se deixar tocar, sobre gozar devagar, sem lista de supermercado ou
rapidinha porque temos compromisso. Sobre como eu entrei nessa toca de coelho
que dá pro mundo que a gente chama de real e acabei me convencendo dessas
coisas todas que a gente chama de verdades. Se eu não sinto mais, ainda é de
verdade? Sobre como eu nem sorrio mais, a não ser que seja alguma publicação
cruel de humor negro por aí. Quero rir de felicidade, da sensação gostosa, do
bigodinho de leite. Quero amanhecer sem querer morrer agarrada à cama como se
não houvesse nada que valesse à pena no dia. Quero sentir que vale. Quero fazer
valer. Quero voltar pra casa. É sobre voltar pra casa. Sobre estar em casa. Se
sentir em casa.
Ron Bugado
Lançado em 2021 e dirigido por Sarah Smith e Jean-Philippe Vine, Ron Bugado foi uma coprodução da 20th Century Studios, pertencente à The Walt Disney Company, com o estúdio britânico Locksmith Animation. Talvez pelo período de seu lançamento, quando ainda vivíamos as incertezas da pandemia, o filme não tenha alcançado o faturamento esperado para uma produção da Disney e acabou sendo visto por muitos como um fracasso. O que, de certa forma, nos faz refletir: afinal, o que realmente define o que é ou não um sucesso? Algo semelhante aconteceu com o filme Elementos, que funciona como uma metáfora sobre imigração, preconceito e a experiência de ser filho de imigrantes, inspirada na vida do diretor Peter Sohn, mas essa já é conversa para outro post. Talvez por não ter tido um grande desempenho nas bilheterias, só conheci o filme no início de 2026. Ele surgiu “por acaso”, entre as recomendações, depois de eu reassistir a uma animação do Studio Ghibli. Eu estava sem grandes expectativas; s...

Lindo texto :)
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