A última noite

Foto: Ariana Lim

 

Se você soubesse que aquela era a última noite, o que teria feito diferente? Teria perguntado o meu nome, anotado meu telefone ou pedido algumas horas a mais? Talvez tenha sido egoísmo da minha parte fazer você acreditar que teríamos mais tempo, mas a verdade é que eu estava apenas de passagem — mas não estamos todos? Você poderia ter me perguntado quando eu contasse que não teríamos o amanhã, e iríamos rir disso ou passaríamos horas filosofando sobre a nossa existência, sobre o fim do mundo e se existe vida inteligente fora do planeta Terra.


Quando a gente se diverte, o tempo passa de uma maneira diferente, e fazia tanto tempo que eu não me divertia tanto. Não queria pesar o clima com um tom de despedida, querendo ficar um pouco mais. Se você tivesse pedido, talvez eu tivesse ficado. E, feito despertador em modo soneca, eu teria adiado e adiado, de cinco em cinco minutos, até não poder mais.


Agora, olhando as fotos como um #TBT fora das redes sociais, não me arrependo das escolhas que fiz e não me torturo com a possibilidade do “e se”. Mas ainda me pergunto qual seria o tom exato da cor dos seus olhos; talvez eu não tenha me aproximado o suficiente para descobrir. E, apesar disso, sei qual é o melhor sorvete da cidade, sua cor favorita, seu time do coração, como foi seu primeiro dia na escola e como você sonha em sair da sombra do seu pai, construir seu próprio negócio e viver da sua arte.


Um dia desses vi uma foto sua no jornal e fiquei feliz por saber que você está seguindo seu sonho; imagino que não tenha sido fácil. Ver seu sorriso largo e o olhar apaixonado me inspirou mais uma vez, assim como nosso encontro há alguns carnavais. Tem gente que passa pela vida da gente feito furacão; há outras que surgem feito arco-íris em dia de chuva, para nos lembrar que ainda existe beleza, mesmo quando tudo parece meio nublado e cinzento. Você foi assim. E, se eu me permitir ser sincera, talvez eu tenha, sim, um arrependimento: arrependo-me de não ter te dito obrigada.


Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas alguma coisa me diz que, cedo ou tarde, nossos caminhos irão se encontrar novamente. E, quem sabe, quando isso acontecer, você seja mais ousado, pergunte meu nome, peça meu telefone e quem sabe me dê um motivo para ficar.




Este texto foi escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita para o mês de fevereiro de 2026, cujo tema é A última noite. Vivenciando a Escrita é organizado todos os anos pelo Projeto Escrita Criativa, que está desde 2015 reunindo na internet pessoas que amam escrever. Para saber mais e participar, acesse Projeto Escrita Criativa


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