Você nunca mais vai ficar sozinha

by - quarta-feira, junho 17, 2020


Neuras, traumas, obsessões, medos e amor desmesurado são os ingredientes desse livro hilariante sobre uma filha que vai virar mãe.
Aos trinta e cinco anos, Karine faz roteiros para prêmios como “Você Faz a Diferença no Setor Têxtil” ou “Prêmio Nacional de Saúde Bucal”. O emprego que não a satisfaz intelectualmente ― seu sonho é escrever para o cinema ― permitiu ao menos que ela saísse de seu bairro natal, o Belenzinho. Sua obsessão com sucesso financeiro é o caminho mais curto que encontrou na tentativa desesperada de se afastar da vida tacanha e neurótica de sua família.
“Você nunca mais vai ficar sozinha” é a frase que ela ouve de sua mãe quando conta que está grávida de uma menina. Hipocondríaca, ela cumpre com rigor a rotina de exames pré-natais. Em intermináveis conversas com sua enfermeira predileta, Karine rememora episódios da turbulenta relação com a mãe, maldiz as agruras da gestação e antecipa o amor e os medos da maternidade.
O novo livro de Tati Bernardi tem a química explosiva que só ela sabe produzir: altas doses de humor, neurose e cinismo, costuradas numa prosa ágil e inteligente que confere humanidade e empatia aos personagens mais improváveis. Neste romance intenso e hilariante, a ideia do fim da solidão que o nascimento de uma filha pode trazer parece ser ao mesmo tempo um bálsamo e uma danação.
📖Skoob 👍Avaliação Final:  

Neste livro Tati Bernardi nos convida a conhecer Karine, uma mulher de 35 anos, em sua primeira gravidez. Separei um trecho de como começa essa história para vocês poderem visualizar, ainda que de maneira superficial como a narrativa irá se desenrolar: 

Oi, eu sou a senha preferencial 76. Prefiro fazer o de urina primeiro porque estou apertada. Se bem que melhor não. Vamos começar pelo de sangue porque tenho hipoglicemia e já estou há horas sem comer. Posso tomar o lanchinho e depois voltar e colher a urina sem pegar fila? Tudo bem, esquece. Não tenho aflição de agulha, só não fico encarando. Nossa, precisa tudo isso de tubinho? Quase dez semanas. Vomitei só duas vezes, mas tive vontade umas duzentas.
Não sou daquelas grávidas saltitantes, não me tornei um unicórnio alado da alegria suprema. Amo esse filho, amarei esse filho. Acho que é menino. Falo pras pessoas que com tanto mal-estar e cansaço e prisão de ventre nem uma dessas mocinhas bem bobas e leves e “apaixonadas pela vida” permaneceria solar. Mas é mais do que isso. Poderia dizer que parei com o Efexor assim que descobri que estava grávida e esse desmame repentino me fodeu a cabeça. Mas é mais do que isso.


Cada capítulo corresponde a uma nova consulta de pré-natal, onde Karine compartilha trechos de sua vida, suas neuras, anseios e expectativas com a fase atual, com a enfermeira que a atende. Ao longo da leitura vamos conhecendo mais sobre a relação conturbada de Karine com a mãe, e como ela está encarando a sua própria relação com a maternidade. 


“Você nunca mais vai ficar sozinha.” Minha mãe acha que mulher que tem filha mulher nunca mais se sente só.

Tati tem uma escrita ágil e envolvente, que nos diverte, choca e faz refletir.  Abordando uma realidade que se torna cada vez mais comum entre as mulheres de 30 e poucos anos, mas que nem sempre é colocada nas rodas de conversas ela mostra o processado de maternidade sem toda a romantização que muitas vezes estamos acostumadas a ver por aí. 

Queria que as suas palavras tivessem a sua estatura pequena. Queria me ater ao rouco quase sumindo da sua voz e parar de ser avassalada por suas palavras. Queria ouvir suas frases ainda menores que a sua capacidade de amar direito. Mas você é meu Empire State particular. Um troço imenso entrando pela porta frágil da minha devoção infantil. Eu estou nua num palco torcendo há trinta e cinco anos para que você ria e aplauda. Para que você jamais se levante e vá embora. Só você. Isso tudo que eu faço é pra você. 

Este livro traz personagens que estão longe de serem perfeitos, mas que cativam justamente por suas imperfeições.  Eles se aproximam da realidade de tal forma que parece que já somos velhos conhecidos já nos primeiros capítulos! Ah, é claro impossível não rir com algumas situações vivenciadas pela protagonista, ainda que seja um riso de nervoso ou vergonha alheia.

 Ser adulto é passar mal e querer sua mãe, mas já ser mãe e seu filho querer você.

Você nunca mais vai ficar sozinha é a primeira obra completa que leio da Tati Bernardi, até então estava acostumada a ler textos avulsos ou citações de suas histórias. Durante a leitura fiquei surpresa com a forma que a autora desenvolveu o enredo e em alguns momentos me peguei duvidando se essa era realmente uma história de ficção (quem acompanha a autora  sabe que ela é conhecida pelo trabalho mais autobiográfico, por isso a dúvida).  A temática escolhida por Tati me lembrou muito o livro da Maria Fernanda Guerreiro,  A Filha da Minha Mãe e Eu, que inclusive já resenhamos aqui no blog, e é interessante poder conhecer obras que abordem a relação mãe e filha, aliada ao tema maternidade ainda que a gente não seja mãe. 

Se você busca uma prosa ágil, inteligente com um pitada de humor ácido e ainda conhecer um pouco mais do talento dos autores nacionais, dê uma chance para este livro. 

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3 comentários

  1. Uau! Que livro mais incrível.
    Estou surpresa com o livro dela, mas já esperava que a escrita fosse muito boa, ainda não li nenhum livro dela, essa parece ser uma ótima aposta ;)
    Jardim de Palavras

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  2. Oii
    Não conhecia a história mas parece ser muito boa
    Adorei a resenha.

    Beijinhos!
    https://focadasnoslivros.blogspot.com/

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