Dordogne


Lançado em 2023 pelo estúdio francês Un Je Ne Sais Quoi em parceria com Umanimation, o título é uma aventura narrativa que troca a adrenalina pela contemplação. Entre cenários pintados em aquarela e uma narrativa delicada sobre família, perda e memória, o jogo convida o jogador a revisitar a infância pelos olhos de Mimi, uma jovem que retorna à casa da avó em busca de respostas sobre um passado que ela já não consegue lembrar.


Uma carta que muda tudo


Já adulta, Mimi vive um momento de incertezas e mantém uma relação delicada com o pai. Desde a adolescência, uma lacuna em sua memória a acompanha: ela não consegue se lembrar de nada do que aconteceu antes de completar 13 anos. Ainda assim, existe a sensação de que algo muito importante ficou perdido naquele período, como uma lembrança que insiste em permanecer fora de alcance. Porém, tudo muda após a morte de sua avó, Nora.




Seu pai, Fabrice, recebe uma carta da tabeliã da família, que também era uma antiga amiga de Nora. Nela, é informado que a casa da família será esvaziada em breve. Além de oferecer suas condolências, a tabeliã comenta que, embora não fosse difícil encontrar um comprador para o imóvel, acredita que uma casa carregada de tantas histórias deveria permanecer com a família. No mesmo envelope, há ainda uma carta destinada a Mimi, que ela pede para ser entregue em mãos.


É um começo discreto, mas que já revela muito sobre aquela família. Enquanto Fabrice parece decidido a encerrar esse capítulo da vida e deixar o passado para trás, Mimi enxerga naquelas cartas e na caixa de lembranças deixada pela avó uma oportunidade de recuperar memórias esquecidas e, quem sabe, compreender o segredo que marcou sua infância e separou sua família.

Contrariando a vontade do pai, ela viaja até a antiga casa da avó, na região francesa da Dordonha. É ali, entre fotografias, objetos antigos e recordações cuidadosamente preservadas, que Dordogne realmente começa.


A casa da avó


Existe algo quase universal na ideia da casa da avó. Para muita gente, ela representa um lugar de acolhimento, onde o tempo parece passar mais devagar. É onde vivem os cheiros da comida feita temperada com amor, as brincadeiras da infância e algumas das lembranças mais preciosas que carregamos pela vida. Dordogne entende esse sentimento e o traz para sua narrativa de certa forma.




Mais do que contar uma história sobre segredos de família, ele fala sobre memória. Sobre a forma como uma fotografia esquecida, o aroma de uma receita, o som de uma fita cassete ou um objeto guardado em uma gaveta são capazes de nos transportar para outra época. A antiga casa de Nora não serve apenas como cenário: ela se torna uma personagem silenciosa, guiando Mimi por lembranças, emoções e respostas que pareciam perdidas no tempo.


Essa proposta é reforçada por uma direção de arte simplesmente encantadora. Com cenários pintados à mão em aquarela, Dordogne faz cada ambiente parecer uma lembrança ganhando vida diante dos nossos olhos. Não é apenas uma escolha estética; é uma linguagem visual que conversa o tempo todo com a narrativa, transformando a nostalgia em parte da experiência e fazendo com que o jogador também se sinta parte daquela história.



Talvez seja justamente por isso que Dordogne funcione tão bem. Apesar de ser uma experiência relativamente curta, o jogo nunca tem pressa. Ele nos convida a desacelerar, observar os pequenos detalhes e enxergar o mundo com a curiosidade de uma criança descobrindo tudo pela primeira vez. Em uma época em que tantos jogos nos incentivam a correr de um objetivo ao outro, Dordogne nos lembra que algumas das melhores lembranças nascem justamente quando paramos para apreciar o caminho.


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