Maça do Amor


O aroma adocicado e levemente picante surge como um convite, daqueles difíceis de resistir. Deixo que meu olfato me guie, e não demora muito para que eu ouça o crepitar do fogo. Sinto meu corpo relaxar aos poucos e uma sensação familiar tomar conta de mim. Ah, como senti falta disso, penso, mas não digo.

Assim que adentro o espaço decorado com bandeirolas coloridas, sou recebida por olhares curiosos, em contraste com sorrisos cheios de afeto. É como voltar no tempo. Tudo está do mesmo jeitinho que eu lembrava: a disposição das barracas, a ordem do festejo, até o padre ainda é o mesmo, dá para acreditar? Ainda assim, parece que algo não se encaixa. Algo mudou, e eu não consigo explicar o quê. Talvez seja a cidade. Talvez seja eu.

Sinto uma brisa fria me atravessar, um lembrete sutil de que não demorará muito para que as temperaturas caiam e deem boas-vindas ao inverno. 

Cumprimento alguns conhecidos, mas não prolongo nenhuma conversa. Todos acham que sabem por que estou aqui; o que eles realmente querem saber é se, desta vez, eu vou ficar. Talvez se sintam parte de alguma versão moderna da parábola do filho pródigo. Não que alguém se importe de verdade, mas, em uma cidade pequena, qualquer faísca pode virar um incêndio quando encontra o combustível certo.
Voltar para casa é uma sensação difícil de explicar, mas ainda assim eu sempre tento quando alguém de fora me pergunta por que fico tão relutante quando o assunto "casa" surge. 

Imagine uma maçã do amor. Ela é, sem dúvida, um dos doces mais bonitos da festa. Seu brilho e sua cor intensa chamam a atenção, atraindo todos em sua direção, feito uma luz atraindo insetos. Você nem precisa gostar dela para se sentir atraído.

Quando eu era criança, costumava passar vários minutos admirando as maçãs alinhadas na barraca antes de escolher uma. Elas pareciam perfeitas, quase mágicas. Não sei qual era o segredo que a irmã Maria colocava nos doces, mas todos que provaram a iguaria a descreviam como um pedacinho do céu na Terra. E, mesmo sem gostar de maçãs, eu voltava todos os anos para escolher a minha e conquistar alguns minutos de paz. Mas, uma vez que você se permite apreciá-la, descobre que a calda é grudenta e dura e que, se não tiver paciência para encontrar o jeito certo, pode acabar se machucando. E o encanto se quebra. 

Voltar para casa e reencontrar minha família não é tão diferente de comer uma maçã do amor. Mas ninguém entende. Na verdade, acho que quase ninguém está disposto a entender. Cada um segue lutando as próprias batalhas; a gente tenta o tempo todo não  desistir de tentar. 

E é por isso que continuo voltando, ano após ano, depois de ter ido embora pela primeira vez. Sempre volto na mesma época, porque preciso do aconchego do outono, do aroma doce e picante tão familiar no ar e daquela maçã com gostinho de infância. Ela me lembra que não quero desistir do amor, que sigo tentando e alimentando a esperança de que as coisas possam ser diferentes. Mas também me lembra que, por trás de toda beleza e aparente perfeição, existe algo que exige cuidado. Se eu não respeitar o meu ritmo, sou eu quem sempre acaba machucada. 



Este texto foi escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita para o mês de junho de 2026, cujo tema é Maçã do Amor. Vivenciando a Escrita é organizado todos os anos pelo Projeto Escrita Criativa, que está desde 2015 reunindo na internet pessoas que amam escrever. Para saber mais e participar, acesse Projeto Escrita Criativa


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