Lembro de ouvir minha avó dizer à minha mãe:
— A gente não cria os filhos para si. Cria para o mundo.
Na época, eu não entendia o que aquilo significava. Mas me lembro do olhar cansado de minha mãe respondendo que vovó não entendia, que os tempos agora eram outros.
Por muito tempo essa memória permaneceu quieta dentro de mim. Até que, em uma manhã aparentemente comum, aquelas palavras atravessaram meu pensamento logo nas primeiras horas do dia. E, antes mesmo de compreender por quê, a lembrança dos olhos cansados de minha mãe voltou inteira para mim.
Ela dizia que minha avó não entendia.
Hoje, sou eu quem não entende.
Será que algum dia entenderemos de verdade o que significa amar alguém e, ainda assim, prepará-lo para partir?
A frase me acompanha enquanto meu corpo muda e a vida segue acontecendo. É uma presença silenciosa, quase delicada, como o som da brisa agitando as folhas das árvores lá fora. Ainda assim, há algo nela que me assusta. Principalmente agora, quando acaricio minha barriga e penso na vida que pulsa em meu ventre.
Um infinito de possibilidades atravessa meus pensamentos. Aos poucos, começo a dar nome aos meus medos e percebo que poucos deles realmente dependem de mim. Talvez seja isso o mais difícil na maternidade: aceitar a falta de controle e a ideia de que nunca seremos boas o suficiente. Mas seguimos tentando. Criamos abrigo para, um dia, ensinar alguém a partir. Nutrindo, cuidando, sabendo que chegará o tempo em que ela desejará abrir as próprias asas.
Enquanto imagino embalar você em meus braços, penso que gostaria de guardar você junto ao peito, como fotografia dentro de um relicário. E então percebo que minha mãe e minha avó também carregavam seus pequenos relicários: lembranças, medos, esperanças, amores que nunca aprenderam a abandonar completamente. Eles sempre foram muito mais que simples fotografias protegidas por uma joia.
É estranho perceber como o tempo transforma tudo. Imagino você crescendo e sou atravessada por sentimentos que às vezes nem consigo nomear. Mas, junto deles, nasce também uma compreensão silenciosa das mulheres que vieram antes de mim. Minha avó tinha razão. E minha mãe também.
Nós não criamos filhos para nós mesmos. Criamos filhos para o mundo. Mas os tempos realmente mudam, e talvez nosso maior desafio seja ensinar nossos filhos a não se perderem em meio a tantas mudanças.
Quero que você saiba que o mundo pode ser duro, confuso e instável. Quero que saiba também que haverá valores dos quais não vale a pena abrir mão. E, acima de tudo, quero que saiba que sempre existirá um lugar para voltar.
Mesmo quando a vida parecer incerta.
Mesmo quando tudo doer.
Mesmo quando você achar que precisa enfrentar o mundo sozinha.
Ser fiel a si mesma talvez nunca seja o caminho mais fácil. Ainda assim, acredito que é uma das poucas maneiras de viver uma vida que realmente valha a pena.
Meu medo não é o silêncio do ninho vazio quando chegar o dia de você partir. Meu medo é outro. É que você cresça acreditando que precisa viver para corresponder às expectativas dos outros. Que aprenda cedo demais a se abandonar para ser amada.
Eu não quero criar você para mim. Nunca quis. Quero que você cresça sabendo que tem escolha. Que, sempre que se encontrar diante de uma encruzilhada, tenha coragem de escolher a própria felicidade. Não a minha, nem a do seu pai, nem a de qualquer outra pessoa que você sinta que precisa agradar. Mesmo que o mundo tente te convencer do contrário, quero que escolha você, entre todas as possibilidades que você escolha sempre a si mesma.
Este texto foi escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita para o mês de maio de 2026, cujo tema é Relicário. O Vivenciando a Escrita é organizado todos os anos pelo Projeto Escrita Criativa, que está desde 2015 reunindo na internet pessoas que amam escrever. Para saber mais e participar, acesse Projeto Escrita Criativa.


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