De braços abertos ao vento

by - terça-feira, janeiro 09, 2018


Era apenas mais um dia como tantos outros que ela já tinha vivido ou era o que ela achava, afinal nada de extraordinário acontecia em sua pacata cidade interiorana.  Porém  naquela manhã ao levantar algo estava diferente  e ela podia sentir isso. Não era nada gritante a ponto de ser notado à primeira vista, talvez nem em uma segunda. Era algo que estava no ar e apesar de ser algo abstrato estava tão presente ali que era quase palpável. 

Que loucura ela pensou. Não havia nada de diferente em sua casa, muitos menos nas pessoas ao seu redor, mas lá no fundo ela sentia um aperto no peito que não conseguia explicar. Era uma dor nova e crescente era como se naquela manhã ao levantar ela tivesse acordado vazia.

Mas que coisa boba essa de sentir um vazio quando se tem uma vida tão completa e repleta de pessoas queridas e afazeres é o que provavelmente sua mãe diria. Seu pai balançaria a cabeça em negativa, sua avó certamente contaria como em sua época as coisas eram diferentes e que isso deveria ser alguma tolice oriunda dessa juventude conectada, talvez eu estivesse alguma razão nisso, porém não era nisso que ela queria acreditar, tinha que ter um algo mais. 

O dia se passou de maneira lenta enquanto sua mente trabalhada a todo vapor em busca de uma resposta para tamanha mudança. Quando a tarde chegava ao fim já em casa ela resolveu abrir uma velha caixa onde guardava o que possuía de mais valioso: suas lembranças.  Ali sentada no tapete cor de rosa releu velhas cartas, algumas escritas por amigos que ora foram tão presentes e que agora só se encontram nas memorias de um passado feliz. outras que ela havia escrito para si mesma como uma forma de lembrete. Além das cartas, haviam fotos e pequenos objetivos cada qual contando uma história...

Ao rever sua vida toda ali dentro de uma caixa ela se deu conta que nada daquilo ali a pertencia mais. Como se cada pessoa, cada história ali contida tivesse levando um pedacinho dela, algo tão pequeno que no momento eu que lhe foi arrecado não fez diferença muito menos casou dor, mas que agora depois de tanto tempo e de tantos pedaços lhe deixou um buraco enorme.

E então ela se deu conta do que havia de errado e ela não gostou nem um pouco das respostas que encontrou. A cada nova pessoa que entrava em sua vida ela percebeu que mais tirando algo dela do que ofereciam. Todos lhe exigiam algo, coisas que muitas vezes ela não poderia oferecer e ainda assim se virava para poder ser o melhor para os outros e não para si.   

Quando a noite realmente chegou e trouxe com ela o frio que a muito tempo não fazia, ela resolveu apesar de todos os avisos que lhe foram dados ir caminhar pela orla da praia, quando foi atingida por uma rajada que fez todo o seu ser estremecer e com isso sentir uma dor diferente daquela sentida pela manhã. Ela sentiu todas as partes do seu corpo se interligando e pela primeira vez em muito tempo ela se sentiu viva. Ao invés se fugir e se esconder como ela sempre fazia quando se deparava com um confronto eminente, ela correu de braços abertos rumo ao vento sem medo do que poderia encontrar pela frente. 





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5 comentários

  1. Que texto mais lindo❤️ é uma sensação ótima quando a gente consegue se encontrar no meio da dor, se libertar no meio do caos e seguir em frente sem medo!
    Beijos
    Ayumi.

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  2. Um texto fictício que falou quase tudo sobre mim. Por muitas vezes eu me sinto assim, com um vazio enorme no peito, e olhar as lembranças parece me fazer ficar pior, mas diferente da personagem eu ainda não aprendi "Ao invés se fugir e se esconder como ela sempre fagia quando se deparava com um confronto eminente, ela correu de braços abertos rumo ao vento sem medo do que está poderia encontrar". Espero aprender isso o mais rápido possível. Gostei muito desse texto!!!!

    Beijos
    www.blogoxitocina.com

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  3. Adoro como as suas protagonistas trazem um conforto para o coração ♥
    É muito bom poder ver uma mulher reconhecendo o seu espaço no mundo e, apesar do medo, se sentindo confortável nele. Só por isso o seu conto já é lindo!
    Gosto muito das suas escolhas linguísticas e a forma como você arquiteta as palavras para elas formarem o texto.

    Beijos,

    Algumas Observações

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  4. Abertura e fechamentos de ciclos, muito bom seu texto, super me vejo em alguns pontos do seu texto. <3 <3 <3

    Beijos

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  5. Esse final foi incrível! Simplesmente amei essa sensação de conforto e também de liberdade e coragem. Lindo texto *-*
    Beijo grande,
    Café, Vodka e Literatura

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