No braço

quinta-feira, dezembro 22, 2016


Em várias situações ao longo da minha vida eu percebi que incito em algumas pessoas, principalmente em alguns homens, certa agressividade. Tem algo a ver com o meu nariz em pé que desperta neles o desejo de me colocar de volta ao lugar que eles imaginam que eu deva ficar, com mostrar que minhas ideias são errôneas, com afirmar meu tamanho e peso ínfimos e demonstrar minhas limitações. Algumas vezes esse desejo de me humilhar de algum modo chegou às vias físicas: namorados que me prendem à força em seus braços, colegas que faziam cócegas para além do meu fôlego. Algumas vezes a ideia era ter o poder de transformar essa mulher adulta e “indomável” em algo dócil e maleável sobre braços fortes, outras vezes, trata-se de brincadeiras aparentemente bem intencionadas cujos objetivos eram fazer meus olhos saltarem de desespero e provar literalmente à força minha fragilidade.  
Demorei para me dar conta do significado dos machucados ocasionais que apareciam em mim, da sua insistência em demonstrar as diferenças de renda e dos pequenos apelidos depreciativos. Você nega, é claro. Mas eu passei alguns anos apanhando antes de aprender a reconhecer o sadismo nos olhos de alguém. Você chega com seu carro tocando algum som muito alto, cumprimenta as pessoas sonoramente, entra no ambiente calçando sapatos que deixam marcas sobre o chão, joga-se abertamente no sofá, toma o controle e escolhe algum canal, ajustando o volume em uma altura suficiente para ser ouvida por toda a casa. Acostumado demais a não ter resistência, pelo seu tamanho, pelo seu emprego, pelo seu sexo. Eu te peço que abaixe o volume, que divida espaço no sofá, que tire os sapatos para entrar e pronto, está feito o incentivo para que você me mostre, que poderia, se quisesse, não me atender.
Desde pequena minha mãe dizia que eu apanharia muito do mundo pelo meu jeito. Eu me fechava e me protegia, mas no íntimo, sempre que alguém me machucava, eu lembrava de suas palavras. É difícil seguir quando se nota que tanta gente quer te ferir. Quase como se o meu fracasso provasse que uma mulher não pode falar tão alto ou ir tão longe de casa. Quando eu assisti “Que Horas Ela Volta”, não precisei que ninguém me explicasse o que era ser Jéssica: andar pelos espaços como alguém de direitos, quando todos esperam que você seja discreta e se desculpe constantemente por existir.
Eu não preciso ser lembrada da minha fragilidade. Rotineiramente, todas as vezes que me calço para sair à rua, eu me acuso intimamente de ser pretenciosa. Meu medo e minha coragem estão sempre juntos. No short que eu uso, no curso que eu faço, no bar que eu entro, nas opiniões que eu dou. Eu tive que criar casca para viver, mas não se engane, o meu de fora é tão de verdade quanto o que é de dentro. E se você precisa tanto me ferir e lembrar do meu lugar, talvez haja uma razão, talvez seja eu que te lembre do que você não é e que, mesmo pequena assim, eu tenho ido longe e conquistado muito. Você me ganha no braço, veste seu cinto e aproveita os seus instantes de prazer. Mas o instante passa, eu me refaço e você, se tiver sorte, vai se dar conta que o braço é tudo o que você tem.

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2 comentários

  1. Gente, que texto! Esse último parágrafo foi perfeito, você escreve muitíssimo bem, parabéns!

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  2. Menina, você arrasa. Amo texto autorais, são tão verdadeiros e dizem tanto de quem escreve. PARABÉNS!!

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