Conheçam Anabelle.



A pequena começava a duvidar de sua sanidade quando estando sozinha anseava por companhia.E na multidão, a solidão tornava-se bálsamo.Mas como crescer, como madurar na juventude se nem ao menos sabia em que lugar cabia? Assim, como uma providência para nada, pintou as unhas de rosê, os lábios de carmim.Fechou todas as portas e janelas dizendo : ‘Hei de viver comigo mesma!’.Nem a luz do dia poderia interferir na sua decisão de ser sozinha.Abafado.O quarto, privado da brisa da manhã, tornou-se abrasador, sufocando-a na sua própria respiração.Mas como viver consigo mesmo poderia não completar? Lá foi ela, receosa, abrir uma brechinha da porta, respirou fundo e tornou a voltar.Teria perdido o bom senso? Está aí, ela se questionava, como é ter bom senso? Talvez seja viver com um pé no real e outro galgando as escadas do imaginário.
Anabelle que perdia a cabeça todo fim de noite, descobriu que era ao contrário: a realidade era válvula de escape e não gaiola.Sim, sua mente era outro mundo e viver apenas neste .. Bom, seria como esperar em alto mar a maré subir e deixar a água tomar tudo, deixar os braços inertes ao lado do corpo e afogar em si mesmo.Afogar no denso de sua mente.A realidade era a brechinha na porta, um fôlego menos absurdo, menos intenso.O real era calmaria que as vozes em sua mente não permitiam.
Ela começa a cantar debilmente uma canção de outrora.Achava sua voz macia, mas só ali secretamente.Quando as notas chegavam aos outros alguéns parecia estranho, forçado.Não sabia pedir nada, nem afeto.Era humilde na esperança de receber excessos e assim nem o imprescindível lhe era entregue.Quando foi embora disse : ‘Não posso interferir mais em sua vida, apenas seja sem mim’ e surpreendentemente seguiram seu conselho, mas não foi isso que ela desejou que acontecesse.Ela disse que não participaria em ações, mas nas entrelinhas gostaria de permanecer viva em memórias.Mas no fim : nem presença, nem lembrança.Era esse o seu deslize, confiar na percepção dos pequenos detalhes,na penumbra do sentir.Mas só entendem o que é gritante, desgastado no falar.A delicadeza de subentender é utopia dos sentimentais.

Que tolice da garota! Estava chorando agora com os antigos blues e em pleno horário de almoço.Sentia-se na tangente dos afetos de outras pessoas, que não eram pra ela, estavam em jorros para outro alguém.Era ingênua e louca nossa pobre Anabelle.Não é de ver que ela acreditava no amor? Tola Anabelle.
Para adiar suas tarefas, essas burocracias da vida prática, ela fica rodopiando com seu vestido rendado pelo quarto.Achava que assim, ia descobrir uma forma de suportar melhor a lucidez que a vida exigia.
[...]

Isabela Ribeiro.


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