Neste romance, Alice Oseman, autora da série Heartstopper, nos apresenta uma narrativa sensível e bem-humorada, em que um astro do rock e uma fã apaixonada percebem que têm vidas mais parecidas do que imaginavam.
Angel Rahimi está prestes a realizar o sonho de qualquer garota: ir para Londres com a melhor amiga para assistir ao show do Ark, sua boyband favorita. Angel faz parte do fandom da banda há anos, e foi ali ― em meio a fóruns, fanfics e postagens nas redes sociais ― que encontrou amizades verdadeiras e um lugar no mundo.
Jimmy Kaga-Ricci é o vocalista do Ark, e deve tudo o que tem ao grupo. Shows lotados, fãs apaixonados e festas com celebridades são comuns em sua rotina, mas o sucesso cobra um preço caro, e ele sofre cada vez mais com crises de ansiedade e paranoia.
Os caminhos de Jimmy e Angel se cruzam justo quando ele começa a questionar se a fama é algo que realmente deseja, e ela a se perguntar se o amor que sente pelo Ark só é tão grande porque a ajuda a fugir de seus problemas. Entre conversas sobre música e surpresas inesperadas, esta é uma história sobre o poder de acreditar em alguma coisa ― especialmente em si mesmo.
Alice Oseman mais uma vez demonstra sua sensibilidade ímpar ao contar histórias profundas e abordar temas delicados de maneira respeitosa e acolhedora. Quem já leu Heartstopper sabe do que estou falando.
Inicialmente, levando em consideração a sinopse, imaginei que encontraria uma história de amor romântico, mas me surpreendi ao longo da leitura com a forma como a autora explora o universo dos fãs e os sentimentos de amor, admiração e devoção que fazem parte dessa experiência. Ao mesmo tempo, ela apresenta o outro lado da fama e os dilemas típicos da transição da adolescência para a vida adulta.
No entanto, apesar de tudo ser tão terrível no mundo, escolhemos apoiar o Ark. Escolhemos esperança, leveza, alegria, amizade, fé, mesmo quando nossa vida não é perfeita, ou empolgante, ou divertida, ou especial, como a dos meninos do Ark.
Um dos aspectos mais interessantes do livro, na minha opinião, é a maneira como Alice Oseman retrata a relação entre fãs e ídolos. A narrativa nos faz refletir sobre como, muitas vezes, os fãs tendem a idealizar os artistas e enxergá-los como pessoas perfeitas, quase como se existissem apenas para atender às expectativas do público. No entanto, por trás dos palcos, da fama e da imagem construída diante dos fãs, existem pessoas reais, com inseguranças, fragilidades e problemas próprios. A autora nos convida a refletir sobre a ideia de que os artistas pertencem ao público, mostrando que admiração não significa posse e que a conexão com um ídolo precisa respeitar os limites entre a vida pública e a vida pessoal.
Alternando os capítulos entre os pontos de vista de Angel Rahimi e Jimmy Kaga-Ricci, o vocalista do Ark, a autora nos permite que conheçamos as inseguranças, os conflitos e as diferentes perspectivas de ambos sobre o que estão vivenciando.
Por meio de Jimmy Kaga-Ricci, a autora aborda questões como ansiedade e paranoia, mostrando como essas experiências podem ser agravadas pela pressão da fama e pela exposição constante à mídia. Além disso, o processo de afirmação de gênero de Jimmy, um garoto trans, é integrado à narrativa de maneira natural, contribuindo para a representatividade sem reduzir o personagem à sua identidade de gênero. Ao mesmo tempo, a história evidencia como esse processo pode envolver desafios particulares quando se está sob os holofotes, em meio às expectativas e ao julgamento do público.
Às vezes amor não parece o termo certo. O que sinto pelo Ark é o que me faz seguir em frente todo dia. É o que me tira da cama, mesmo quando a vida está uma merda e e sinto uma inútil.
A história de Angel também levanta questões interessantes sobre a devoção aos artistas e o papel que o fandom pode assumir na vida de alguém. Para ela, o Ark representa muito mais do que uma banda: é uma fonte de pertencimento, afeto e identidade, ocupando um lugar central em sua vida. É nesse universo que ela encontra amizades e sente que faz parte de algo maior, especialmente porque se sente deslocada no ambiente familiar. O fandom se torna, assim, um espaço de acolhimento, no qual ela encontra conexões que nem sempre consegue estabelecer fora dele.
Entretanto, o livro também nos convida a pensar sobre como a idealização pode distorcer a realidade e sobre o risco de depositarmos nos artistas expectativas que eles jamais poderiam corresponder. Como já cantava Marília Mendonça: “Quem é você, que eu não conheço mais? Me apaixonei pelo que eu inventei de você”. O trecho resume bem como, às vezes, nos apaixonamos não exatamente por quem alguém é, mas pela imagem que construímos dessa pessoa. Quando a admiração se torna excessiva, aquilo que antes trazia conforto pode acabar gerando frustração, sofrimento e uma relação pouco saudável com a própria realidade e identidade.
Desculpa se eu queria que a gente se conhecesse como pessoa, e não só fãs do Ark.
A leitura de Eu Nasci Pra Isso também me fez traçar paralelos com as reflexões apresentadas em Beyond the Story: Uma História dos 10 Anos de BTS, especialmente no que diz respeito à formação de um grupo, às transformações provocadas pela fama e à maneira como a vida dos artistas muda à medida que o reconhecimento público cresce. Ambos me fizeram pensar sobre a relação entre artistas e fãs e sobre o impacto que a música pode ter na vida das pessoas. Os artistas podem se tornar parte importante da nossa trajetória, oferecendo conforto, inspiração e um sentimento de pertencimento. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que essa relação não precisa ser baseada na idealização: podemos amar e admirar alguém sem deixar de reconhecer que existe uma pessoa real fora dos palcos.
Por fim, Eu Nasci Pra Isso é um livro sem grandes reviravoltas, mas traz reflexões sobre amizade, pertencimento, propósito, saúde mental e os limites entre admiração e obsessão. Acima de tudo, a obra nos lembra da importância de enxergarmos os outros para além das imagens que criamos deles e de estarmos verdadeiramente presentes para as pessoas ao nosso redor e, principalmente, para nós mesmos.





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