Fora de controle

Foto: rawpixel | Magnific


 Estamos naquela linha tênue entre o ontem, o agora e o amanhã.


Giro a taça entre os dedos enquanto procuro coragem para falar. Talvez seja a bebida falando um pouco mais alto, mas vou sentir muita falta de vocês. Sonhei tanto com esse momento que, agora que ele chegou, tudo o que eu mais quero é um pouco mais de tempo.


É só agora que a realidade me alcança: amanhã deixaremos de ser apenas nós. Talvez esta seja a nossa última noite juntos antes que tudo mude para sempre. A partir de amanhã passaremos a ser o que o mundo irá nos enxergar: uma médica, um advogado, um professor, uma jornalista... e alguém que ninguém sabe exatamente o que faz, mas que certamente deve ganhar muito dinheiro.


Espero que nunca esqueçamos que somos muito mais do que as profissões que escolhemos exercer. Espero que ainda exista tempo para conversar sobre amenidades, ouvir músicas duvidosas até quase romper os tímpanos e dançar, cada um à sua maneira, tentando deixar do lado de fora tudo aquilo que pesa sobre nossos ombros e insiste em nublar a mente.


É pedir muito que, só por hoje, a gente deixe o amanhã de lado? Quem liga se hoje é uma segunda-feira? Vamos pegar o carro, ver o sol nascer na praia, deixar o vento bagunçar nosso cabelo e cantar, a plenos pulmões, aquele clássico dos anos 80 que insiste em dizer que seremos jovens para sempre.


Vamos fazer planos como se nada estivesse decidido e dinheiro não fosse um problema. Quem sabe comprar ingressos de última hora para ver nossa banda favorita. Vamos quebrar algumas regras, ficar longe da cadeia. Criar memórias!


Não quero que um dia a nossa melhor fase seja apenas uma história que contamos. Não quero que o passado se torne o lugar onde a gente faça morada.  Quero que a gente continue junto, mesmo quando a gente não for mais quem a gente costumava ser. Que ainda se reconheça, se respeite e se apoie. Porque ninguém permanece igual quando a vida acontece.


Percebo o garçom recolhendo algumas taças ao fundo. A música já não está tão alta. Alguém comenta  que precisa acordar cedo. Pela primeira vez na noite, sinto que ela realmente está acabando. Baixo a taça de champanhe, sentindo o peso das palavras escorrer pelo meu rosto.  Antes que eu consiga terminar a última frase, alguém ri. Outro chora. Sou abraçada. Quando percebo, já não consigo dizer mais nada. E nem preciso.


Porque, no fim, ainda somos a que esquece a chave de casa.

O que sempre chega com um plano.

O que lembra a todos que a vida pode ser doce.

A que encontra sentido onde ninguém mais vê.

E aquela cujo nome sempre aparece como contato de emergência. 




Este texto foi escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita para o mês de agosto de 2026, cujo tema é Fora de controle. Vivenciando a Escrita é organizado todos os anos pelo Projeto Escrita Criativa, que está desde 2015 reunindo na internet pessoas que amam escrever. Para saber mais e participar, acesse Projeto Escrita Criativa


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