Beleza Oculta

Foto: Jessica Gardner


Como resistir aos seus olhos verdes e gentis, em contraste com a sua pele escura? Á sua presença magnética, capaz de atrair todos à sua volta? É difícil lutar contra isso. Porém, tal qual o sol, me aproximar demais sempre foi um risco grande demais para valer a pena. Não quero cometer o mesmo erro de Ícaro. 


Mas e se?
Será?
Quem sabe… 

Há dias em que me pego desejando  voltar no tempo e desviar do exato momento em que meu caminho se encontrou com o seu. Em outros, imagino a sorte de quem ainda não te conhece.  


Que destino infeliz é desejar aquilo que jamais poderemos ter. 

Eu quis ser sua musa. Ser tão vital para sua existência quanto o ar em seus pulmões. Uma vida inteira passou diante dos meus olhos; eu vislumbrei todo um futuro ao seu lado. 


— Eu te amo!

— Vai passar. 


E realmente passou. 

Passou feito um caminhão desgovernado,  levando consigo tudo o que eu tinha de mais precioso — ou pelo menos era o que achava. 

Fiquei ali, parada,  como testemunha ocular, incapaz de fazer qualquer coisa que pudesse mudar aquele desfecho trágico. Ainda assim, permaneci tentando entender o que aquelas duas palavras realmente queriam dizer.


“Vai passar.” 


As palavras ecoavam em letras garrafais em minha mente. Parecia que aquele  seria meu fim. Mas existe uma beleza oculta no momento em nada mais nos resta e o fundo do poço deixa de ser um lugar confortável. 

Dizem que devemos acreditar quando as pessoas nos mostram quem  realmente são. Mas que chance a realidade tem quando a versão que  criei de nós dois  era tão perfeita? 


Eu quis tanto viver uma história de amor digna de cinema. Daquelas que superam distâncias, dificuldades, um amor escrito nas estrelas. Eu me apaixonei pela versão que eu criei de você, e também pela versão de mim que passou a existir ao seu lado, ainda que ela nunca tenha sido a minha melhor versão. 


Talvez essa  tenha sido a parte mais difícil de aceitar: eu estava perdendo a pessoa que eu imaginava que seria ao seu lado, e não apenas você. 


Quando nosso coração é quebrado em milhares de pedaços, é ilusão e perda de tempo tentar reconstruí-lo como um quebra-cabeça, procurando encaixar cada peça em seu devido lugar. Algumas peças, jamais voltarão a se encaixar por mais que tentemos. 


E talvez esse seja o erro. É preciso entender que o jogo já não é o mesmo. Mas, se pensarmos nele como um Lego, mesmo que algumas peças tenham sido perdidas, ainda existe a possibilidade de criar algo totalmente novo. 


E é nesse momento que encontramos liberdade de escrever uma nova história. Uma página em branco. O que aconteceu não pode ser mudado, mas agora existem tantas possibilidades.


Sigo vislumbrando o futuro, independentemente de quem esteja ao meu lado, mas sem permitir que a ilusão me roube novamente da realidade. 


Demorei um pouco para entender que nem tudo o que reluz, e é vendido como precioso, vale nosso sangue, suor e nossas lágrimas. 


Hoje, quando penso em você, já não me pergunto o que poderia ter sido, se você tivesse respondido: “Eu também!” Mas me permito explorar as possibilidades do que ainda pode ser.  E, pela  primeira vez, entendo que a resposta nunca teve a ver com o seu nome. 





Este texto foi escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita para o mês de setembro de 2026, cujo tema é Beleza Oculta. Vivenciando a Escrita é organizado todos os anos pelo Projeto Escrita Criativa, que está desde 2015 reunindo na internet pessoas que amam escrever. Para saber mais e participar, acesse Projeto Escrita Criativa



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