A foto desgastada no porta-retratos mostra tudo aquilo que lutamos para esconder. O sorriso largo no melhor dia das nossas vidas, há muito, já não faz parte da nossa rotina. O seu olhar antes confiante e apaixonado agora vive desviando do meu, sua mão escapando da minha… Às vezes me pergunto onde foi que nos perdemos, mas logo afasto a ideia. Afinal, está tudo bem. Sempre está tudo bem.
As mentiras que contamos aos poucos se tornam verdades difíceis de engolir, mas olhos atentos perceberiam que o fim é só questão de tempo. Hoje em dia, porém, ainda se presta atenção em algo ou alguém?
O nosso tão invejado castelo começou a ruir bem antes de dizermos o tão esperado “sim”. Expectativas desleais de dois jovens que quiseram ter tudo ao mesmo tempo, mas se esqueceram de que tudo é coisa demais para se carregar sozinho quando se decide construir uma vida a dois.
Ainda que eu negue, sinto algo em mim mudar. E eu juro que não quero me ressentir das escolhas que fizemos, mas não consigo. Digo que não me importo, mas é tudo fingimento. Sinto demais todos os seus silêncios, sua mente distante em um corpo presente. Sei que, enquanto for conveniente, você vai tentar esconder, vai me deixar no escuro até que seja tarde demais.
Mas eu te conheço melhor do que ninguém e, no fundo, nós não somos assim tão diferentes. Talvez esse tenha sido nosso primeiro erro. Não vou mais ficar aqui esperando o momento em que você se dê conta do que está abrindo mão. Já não somos tão jovens, mas ainda há tanta vida pulsando em mim que não posso mais negar: o tempo não espera por ninguém — e, como ele, eu também não.
Olho novamente para a foto e me dou conta que nunca gostei dela. Na verdade, eu sempre odiei como ressalta meus piores ângulos. Mas você estava tão bonito e gostava tanto dela que deixei pra lá. E me pego pensando em quantas coisas deixei pra lá só porque te faziam bem.
Retiro a foto do porta-retratos com cuidado. Guardo-a em uma caixinha de madeira esculpida à mão — um dos primeiros presentes que você me deu, e talvez o meu favorito. Ali deixo também o que não quero esquecer, mas não posso mais carregar. Deixo o porta-retratos exatamente no mesmo lugar. Será que um dia você notará que há algo faltando?
Pode parecer besteira, mas ao fechar a caixa sinto algo mudar no ar. O silêncio que fica é diferente. Não dói. Não implora. Apenas existe.
E, pela primeira vez em muito tempo, isso é suficiente.
Este texto foi escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita para o mês de abril de 2026, cujo tema é Mentiras que contamos. O Vivenciando a Escrita é organizado todos os anos pelo Projeto Escrita Criativa, que está desde 2015 reunindo na internet pessoas que amam escrever. Para saber mais e participar, acesse Projeto Escrita Criativa.


0 Comentários
Postar um comentário