Isso aqui é sobre dormir na praia. Sobre o vento que bagunça o cabelo e a
gente não tá nem aí. Sobre a lua e a areia e as luzes da noite. Sobre a pouca
roupa. Sobre fechar os olhos e puxar ar pra dentro como quem se sente inflar.
Sobre como essas coisas perderam espaço. Sobre como o sorriso ficou atrelado ao
gastar. E como eu sinto falta de ficar suada, de comer jaca, de andar descalço,
de viver sem medo de me desgastar ou de sentir dor ou de deixar de parecer bem.
Sobre não lembrar do protetor solar, do hidratante, do leave in, do renew.
Sobre dormir de cabelo molhado. Só porque eu quero. Sobre ter as unhas curtas, sobre
não fazer a raiz. Sobre o glúten, a gordura trans, a lactose, o sódio, a
glicose e a pressão alta. Sobre o salto alto, a cintura fina e o peito de
pomba. Sobre cachorros vira lata. Sobre cavalos. Sobre animais gostosos que
sentem o que a gente sente mais do que muita gente por aí. Sobre abraços sem
perguntas. Sobre beijo de manhã, sob a pele suada sem nojinho ou frescurinha.
Sobre se deixar tocar, sobre gozar devagar, sem lista de supermercado ou
rapidinha porque temos compromisso. Sobre como eu entrei nessa toca de coelho
que dá pro mundo que a gente chama de real e acabei me convencendo dessas
coisas todas que a gente chama de verdades. Se eu não sinto mais, ainda é de
verdade? Sobre como eu nem sorrio mais, a não ser que seja alguma publicação
cruel de humor negro por aí. Quero rir de felicidade, da sensação gostosa, do
bigodinho de leite. Quero amanhecer sem querer morrer agarrada à cama como se
não houvesse nada que valesse à pena no dia. Quero sentir que vale. Quero fazer
valer. Quero voltar pra casa. É sobre voltar pra casa. Sobre estar em casa. Se
sentir em casa.
A última noite
Foto: Ariana Lim Se você soubesse que aquela era a última noite, o que teria feito diferente? Teria perguntado o meu nome, anotado meu telefone ou pedido algumas horas a mais? Talvez tenha sido egoísmo da minha parte fazer você acreditar que teríamos mais tempo, mas a verdade é que eu estava apenas de passagem — mas não estamos todos? Você poderia ter me perguntado quando eu contasse que não teríamos o amanhã, e iríamos rir disso ou passaríamos horas filosofando sobre a nossa existência, sobre o fim do mundo e se existe vida inteligente fora do planeta Terra. Quando a gente se diverte, o tempo passa de uma maneira diferente, e fazia tanto tempo que eu não me divertia tanto. Não queria pesar o clima com um tom de despedida, querendo ficar um pouco mais. Se você tivesse pedido, talvez eu tivesse ficado. E, feito despertador em modo soneca, eu teria adiado e adiado, de cinco em cinco minutos, até não poder mais. Agora, olhando as fotos como um #TBT fora das redes sociais, não me arr...

Lindo texto :)
ResponderExcluir