Bola

terça-feira, março 26, 2013



Há algum tempo não escrevo. Não é nenhum bloqueio criativo, é que eu não sei traduzir essa bola gigante e crescente instalada na minha garganta. Logo as palavras não parecem ser suficientes, logo as lágrimas invadem as letras e logo nem eu entendo o que digo.
O que eu sei é que as minhas unhas estão roídas como não ficavam desde o ano em que prestei vestibular, e que tenho olheiras profundas que não saem de mim por mais que eu durma e que tenho andado aérea como se tivesse tomado meio vidro de Apevitin. E, é claro, eu sinto que esse meu quadro clínico tem uma forte relação com você.
E, veja só, esse é mais um texto ruim, cheio de frases desconexas que me descrevem insuficientemente. Não me adianta um vocabulário vasto se todas as minhas palavras não dizem o que eu quero dizer. Mas também não me adianta dizer apenas o que quero, pois faria menos sentido ainda, um texto longo, onde só se lê seu nome. E não adianta me colocar aqui, à disposição da caneta e do papel pra contar como estou ou como me sinto. O que eu quero é saber de você. E me assusta porque nunca antes me fizeram esquecer o quanto sou liricamente egoísta. E o quanto eu sou emocionalmente frágil. E o quanto você foi e é importante.
Nesses dias estranhos, tenho dito somente o oposto do que quero dizer. É uma pena você não entender nada de psicanálise e deixar de enxergar o óbvio nas minhas negações. Eu não quero que você pense que eu sou absurda, mesmo que eu o seja. Eu não quero que você pense que eu me importo, mesmo que eu me importe. Eu não quero que você pense que eu gosto, mesmo que isso esteja implícito em cada não que eu pronuncio.
Eu não penteio mais o cabelo, eu não menstruo regularmente, minhas roupas não combinam e nunca mais usei maquiagem. Eu ainda sei olhar nos olhos, eu ainda sou transparente, meu corpo ainda é quente e sou eu, apenas eu, dentre todos os motivos do mundo, quem te faz ficar. Mas a bola não sai. E não me adianta tossir, escrever ou negar. Ela vai continuar aqui. Porque eu ando na corda bamba há meses e enquanto houver em mim essa tensão esquizofrênica e esse medo de cair crônico, ela vai permanecer.
Seria mais fácil se você não fosse corda, mas fosse ponte. Mais fácil se você fosse palpável e menos protagonista das minhas fantasias. Seria mais fácil se você fosse mais chão e menos abismo próximo. Seria infinitamente mais fácil se você fosse menos você, menos mistério e, por você, menos amor. Tem sido difícil. Alguém devia ter me dito que amar era estressante. Mesmo que não mudasse os fatos em nada, alguém devia ter me dito.

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3 comentários

  1. Nossa, incrível! Eu amei cada palavra.

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  2. AMEI o texto.. Como vc escreve bem, Alexia. Parabéns. Bjs
    http://radarmexeriqueiro.blogspot.com.br/

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